Atualizada às 18:40
A transformação digital no mercado segurador foi tema de um dos painéis do Credit Suisse LAIC Latin America Investment Conference, realizado ontem, em São Paulo, para 650 investidores e que contou com CEOs de grandes empresas, políticos e ministros. O ponto alto do evento foi a fala do secretário especial de Desestatização e Desenvolvimento do Ministério da Economia, Salim Mattar, que elencou os planos de privatização, preservando apenas Petrobras, Banco do Brasil e Caixa, que ficarão mais enxutas. Segundo ele, o governo pode arrecadar entre R$ 700 bilhões e R$ 800 bilhões com privatizações, que seriam usados para abater a dívida pública.
Mattar, afirmou, de acordo com a Folha de São Paulo, que considera exagerada a quantidade de empresas no ramo de seguros e avalia que não faz sentido o estado concorrer com seguradoras. “Nosso estado tem que ter melhores escolas e creches para os mais necessitados e segurança para sair na rua e caminhar a pé, quartos disponíveis em hospitais”, disse.
Mas este post é para contar sobre o painel de seguros, do qual participaram o CEO da SulAmerica, Gabriel Portella, o CEO da Porto Seguro, Roberto Santos, e o CEO da corretora Minuto Seguros, Marcelo Blay. Eles levaram ao público presente o impacto da tecnologia no mercado segurador, principalmente no mercado de seguros automóveis. Muitos investidores estão de olho no setor.
A retomada do emprego certamente vai impulsionar o crescimento do setor, bem como os debates em volta da reforma da previdência. E isso abre espaço tanto para os atuais players venderem mais como também para a entrada de novos investidores em nichos especializados que vem surgindo com as chamadas insurtech, novatas que aliam seguros e tecnologia. Para 2018, a expectativa é que a arrecadação atinja a cifra de R$ 442,1 bilhões, representando um crescimento nominal de 3,1% em relação ao ano anterior. Já em 2019, o crescimento da arrecadação, excluído o DPVAT, projetado pela CNseg, a confederação das seguradoras, é entre 6,3% e 8,4%.
Em automóveis, estudo da consultoria Siscorp, revela que o setor arrecadou em vendas R$ 32 bilhões de janeiro a novembro de 2018 (os dados finais do ano devem ser publicados em fevereiro). A margem de contribuição média chegou a 18,3%. As indenizações pagas representaram 61,5% dos prêmios ganhos e as despesas de comercialização 20,2%. As maiores companhias neste segmento são Porto Seguro, Bradesco, SulAmérica, Tokio Marine e HDI.
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Segundo Blay, nos últimos anos, as principais mudanças que a tecnologia impôs ao negócio e que continuará nos próximos anos são a redução de custos operacionais e a integração de sistemas. “Claro que temos muito mais ainda por fazer, como as vistorias sendo feitas pelos segurados, facilitar o pagamento de sinistros e implementar novos produtos como “pay as you use”(pague conforme o uso, como se fosse um taxímetro) e “pay how you drive” (pague conforme seu estilo de dirigir e gerenciar riscos)”.
Na opinião de Blay, o atual estágio de evolução da distribuição de seguro por canais digitais ainda não é representativo. A expectativa era de que o avanço das plataformas digitais pressionaria os corretores tradicionais e, eventualmente, acarretaria na queda de comissionamentos. “O exemplo da Minuto vai no caminho oposto ao que se pensava inicialmente, que haveria pressão sobre os corretores tradicionais. Não houve queda no comissionamento, mas sim a manutenção dos patamares tradicionais, além de termos atraído para o setor pessoas que antes não compravam seguro”, afirmou durante o painel.
Roberto Santos, CEO da Porto Seguros, afirmou ao Blog Sonho Seguro que a transformação digital que esta em curso no mercado segurador vem no sentido de aprimorar processos, mas para melhorar o relacionamento entre seguradoras, corretores e segurados. “Toda a transformação busca a eficiência operacional. Não temos a leitura de que o digital acaba ou prejudica a intermediação. Tem uma questão forte de que para a compra de seguros o cliente ainda quer a intervenção humana”, afirmou ele, que preside a maior seguradora de automóvel do Brasil. “O digital tem nos dado muito mais informações para agradarmos e melhorarmos ainda mais a nossa prestação de serviços, tanto para o corretor como para o cliente”.
Gabriel Portella, CEO da SulAmérica, vê como positivo todo o processo de tecnologia que vem sendo implementado no centenário grupo nos últimos anos. “A tecnologia está incorporada nos canais de distribuição. Ajudou na transparência, na assertividade da oferta de produtos e serviços, bem como no aprimoramento do sistema de cotação de preços para que o corretor de seguros ofertar um produto mais aderente ao dia a dia do cliente”, disse ele a jornalista Denise Bueno.
Pelo lado da companhia, Portella ressalta ganhos para a subscrição do risco. “A tecnologia nos permite adaptações de taxas online em casos em que há agravamento de risco até uma maior concorrência em segmentos que temos mais apetite, o que ajuda muito na busca de obter boa rentabilidade para o acionista”, citou.
A SulAmérica não opera com venda direta por acreditar que o corretor faz a diferença na venda. “A história da Minuto Seguro mostra isso. A captação é feita online e o fechamento por telefone”, citou. Todos os produtos com venda online na seguradora foram desenhados para o corretor, que vem cada dia mais se adaptando ao processo tecnológico para incrementar as vendas. “E não só no automóvel, mas também em saúde, vida, previdência e seguro viagem, que tem tido um excelente desempenho”.
Uma coisa é certa: o formato de seguro auto pode mudar significativamente. Primeiro, porque as seguradoras existentes precisam se preparar para o efeito de grande redução em sua receita. Também porque precisam atender a uma nova demanda por coberturas flexíveis e mais personalizadas, que já tem ganhado algum espaço. O surgimento de produtos inovadores também ajudaram a modernizar o setor, como as coberturas como as citadas acima (‘pay as you drive’). “Um cuidado que será necessário tomar é com relação às fraudes. São muito comuns com este tipo de seguro e devem aumentar”, destacou Blay.
No quesito “intermediação”, o setor não espera uma transformação mais profunda. “Mudanças radicais na distribuição não ocorreram. No mercado americano, que podemos considerar com altamente competitivo e maduro, vemos que ainda continuam a existir os diversos tipo de distribuição: através de corretores tradicionais, corretores online, agentes, venda direta, digital”, explicou.
A intermediação do corretor, que é muito forte em seguro automóvel, foi um dos pontos alto do painel. “Primeiramente é preciso quebrar este paradigma: não existe a obrigatoriedade da figura do corretor. A venda direta não é feita pois ela é mais eficiente se feita pelo corretor. O corretor tem como seu core business a venda, a seguradora não. Se não vender, o corretor morre”, afirmou.
Blay explicou aos presentes que a seguradora tem a vocação de gestão de risco, desenvolvimento de produto, controle dos processos, gestão de suas reservas, marca, sinistros, entre outros. “Não tem vocação para a venda”, disse. E mesmo que tivesse, ainda há um grande receio por parte das seguradoras em sofrer retaliação dos corretores tradicionais caso venham a fazer a venda direta. Mas não é impossível que alguém venha a fazer a venda direta bem feita. Porém, a estratégia adotada até agora é fazer a venda por meio de plataformas de vendas gerenciadas por corretores.
Para Blay, a venda deve ser feita de acordo com a preferência do cliente. Mas mesmo a venda 100% online não consegue vingar totalmente, dado que o cliente não tem familiaridade com o produto. “O cliente gosta de ter o comparativo feito por alguém que entende do assunto e pode lhe prestar uma assessoria. As pessoas não querem virar especialistas em seguros. Querem ter alguém faça isso por elas e estão dispostas a pagar por isso”, comenta. Nos EUA, acrescenta, existe espaço para cada um dos tipos de distribuição, com percentuais razoavelmente semelhantes, portanto ainda há espaço para o crescimento do canal de venda através de corretores digitais. “O atendimento é o grande diferencial.”
Precificação – A tecnologia tem ajudado muito o setor na precificação do seguro. “O desafio é fazer com que os clientes instalem dispositivos de monitoramento em seus veículos. Ou baixem o aplicativo e façam uso dele”, ressaltou. Também é um dos focos do setor levar em consideração questões ligadas à privacidade. Com a nova legislação a respeito da proteção de dados a propriedade dos dados. Os dados são do cliente e não da seguradora
Outro ponto interessante do painel foi para aquela velha e boa pergunta que nunca quer calar. Em 2018, houve diversos ventos a favor da indústria de seguro auto, como melhora do índice de roubo e furto e do número de colisões em diversas capitais. Como resultado, foi um ano com rentabilidade bastante alta. Uma vez que a indústria de seguro auto é bastante competitiva, imagina-se que esses benefícios sejam parcialmente divididos com o consumidor, por meio de queda de preços. Os senhores entendem que existe uma tendência de queda de preço em 2019?
Blay afirmou que já houve queda de 5% no preço em 2018 comparado a 2017. “Estamos nos mesmos níveis dos menores preços de 2016 ou no preço médio de 2013. Também está havendo redução na frequência de colisões. O preço ficou deprimido demais. As seguradoras internacionais seguem as seguradoras locais, as que estão aqui presentes, que são especializadas e formadoras de opinião”, comentou.
Quanto ao mercado de seguro de vida e residencial ainda é, em larga medida, enraizado na distribuição bancária, Blay concorda que é preciso gerar demanda. “Trata-se de uma questão cultural que precisa de ajuda das entidades de classe através de campanhas de mídia para despertar a necessidade atrelada à importância de se prevenir”.
Saúde sustentável – O mercado segurador também foi citado em outro painel. Segundo informou o Valor, o setor de saúde no Brasil precisa de mais integração entre as diferentes empresas e também mudar sua dinâmica de remuneração para se manter sustentável, segundo Pedro Bueno, presidente da empresa de diagnósticos Dasa. “Passaram pela Dasa cerca de 700 mil pessoas pré-diabéticas nos últimos dois anos. E nós não fizemos nada com essa informação. Por que eu não procurei os pacientes ou a Intermédica para fazer alguma coisa?”, disse Bueno durante painel na Latin America Investment Conference, organizada pelo Credit Suisse, em São Paulo. Irlau Machado Filho, presidente da Notredame InterMédica, disse que apesar dos esforços para redução de custos, um aspecto que não pôde ser controlado foi a inflação médica, que este ano pode chegar a 16%, cerca de quatro vezes a expectativa de inflação para o consumidor.
Caixa – O presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, afirmou hoje que pretende fazer a abertura de capital de quatro subsidiárias até junho do próximo ano: unidade de seguros, cartões, loterias e gestão de recursos, sendo que duas delas devem ir a mercado ainda neste ano.