Vida longa, com dinheiro no bolso, saúde para dar e vender, amigos e fé

Vida longa. Muito dinheiro no bolso. Saúde para dar e vender. São desejos comuns em qualquer lista de Ano Novo. Sonhos que remetem a longevidade, um plus a mais aqui na terra. Para não transformar esse sonho em pesadelo a dica dos especialistas é investir na saúde física e mental, poupar dinheiro e ter foco, força e fé para aceitar com resiliência os efeitos do tempo. “O importante é que todos invistam para que esse ganho de anos seja curtido com qualidade de vida, que se resume em quatro capitais”, afirma o médico Alexandre Kalache, que dirigiu o programa de envelhecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 1995 a 2008 e hoje é presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil e da Aliança Global de International Longevity Centre.

O primeiro é o capital financeiro. Afinal, dinheiro não nasce em árvore e depois dos 60 boa parte dele é devorada por gastos com a saúde. “É desolador ter um aumento de 69% no plano de saúde aos 50 anos”, diz Angela Caprarola, professora de inglês, que sempre poupou para a aposentadoria. “E não dá para depender do Sistema Único da Saúde nesta crise política sem fim, com corrupção tirando recursos da saúde e da educação. Torço para que se encontre uma solução para os custos da saúde, com planos mais acessíveis por parte das operadoras de saúde e que o governo equilibre suas contas e invista mais em saúde e educação”, desabafa.

“Quem ainda não começou a investir nos quatro capitais essenciais para a qualidade de vida na velhice, comece já”, recomenda o médico Alexandre Kalache

O custo da saúde realmente é uma preocupação de todos. Inclusive para as operadas de saúde. Para se ter uma ideia da escalada dos custos, no Sistema Único de Saúde (SUS), as despesas assistenciais podem atingir R$ 115 bilhões por ano em 2030, ao passo que hoje estão em torno de R$ 45 bilhões. As doenças crônicas que atingem a população idosa impactam fortemente nestes números. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimam que, em 2030, o Brasil contará com mais de 223 milhões de brasileiros, sendo 18,62% com 60 anos ou mais. Em 2000, essa faixa etária correspondia a 8,21%, para uma população de 173,45 milhões.

Flávio Bitter, diretor gerente da Bradesco Saúde e da Mediservice, conta que o grupo aposta na prevenção para reduzir os custos com a saúde. Uma das iniciativas, além do portal de Longevidade com diversas ações que incluem qualidade de vida, a seguradora criou o programa Juntos pela Saúde, com diversas ações para doentes crônicos, obesidade e tabagismo.

A ideia é que as pessoas vivam com mais qualidade, sejam felizes e, consequentemente, usem com pouca frequência os serviços médicos. “A mudança de hábitos de vida é fundamental em qualquer programa de saúde”, diz. Quando o programa teve início, 28,7% da base de clientes praticava esporte. “Hoje esse indicador subiu para 38,5%”, comemora. O mesmo sucesso foi obtido pelo programa de obesidade, que foi reduzido de 29% para 26%, e o de tabagismo de 7,8% para 5,9%.

Mesmo com prevenção, o fato é que viver mais custa mais. O maior gasto com saúde vem depois dos 60 anos. “Os idosos sofrem mais de doenças crônicas (como hipertensão e diabetes), que exigem acompanhamento médico constante, e de males que demandam exames mais sofisticados e custosos”, explica Solange Beatriz Palheiro Mendes, presidente da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde). Um paciente com menos de 18 anos custa ao ano R$ 1.500 para seu plano de saúde, enquanto um com mais de 80 pode gerar gastos de R$ 19 mil por ano, de acordo com dados do Instituto de Estudos da Saúde Suplementar (IESS). O custo assistencial médio por beneficiário dos 54 aos 58 anos é de R$ 3.988,23, enquanto que, a partir dos 59 anos, sobe para R$ 8.036,35 (mais que o dobro).

O quanto antes a pessoa começar a programar como ter renda no futuro e como driblar imprevistos, como acidentes, doenças e desembolso extra de recursos para pagar despesas extraordinárias, melhor. E poucos fazem isso, segundo pesquisa divulgada em junho de 2018 pela Federação Nacional de Previdência Aberta (FenaPrevi). De acordo com o levantamento, 63% dos entrevistados declararam que não tem nenhum investimento para garantir a aposentadoria no futuro. Nas classes AB, 50% estão nessa condição. Na C, o índice salta para 64% e chega a 76% nas Classes DE. O estudo ouviu 1200 indivíduos em 72 municípios no mês de abril, com idades entre 16 anos e 60 anos ou mais. A margem de erro é de três pontos percentuais.

Depender do governo, seja para ter uma renda com a aposentadoria ou atendimento médico público, é algo cada dia mais arriscado considerando o elevado déficit público e fatores como o aumento da expectativa de vida e a queda da mortalidade infantil e natalidade. O número médio de filhos por mulher caiu de seis na década de 70 para o atual 1,8 – abaixo da “taxa de reposição”, dois filhos por casal. A projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de que a população do Brasil comece a decrescer a partir de 2042, quando chegará a 228 milhões de habitantes, enfatiza Edson Franco, presidente da FenaPrevi. “O aumento da expectativa de vida do brasileiro saltou de 46 anos em 1940 para os atuais 76 anos. São transformações impressionantes mesmo quando se olha para um período curto, como os 17 primeiros anos deste século.”

“A conta não fecha”, ressalta Edson Franco, presidente da FenaPrevi

A proporção de habitantes com mais de 65 anos subiu de 6% em 2000 para 8% em 2017, um salto de 9,7 milhões para 17,6 milhões de de pessoas nessa faixa etária. Em números absolutos, essa população quase dobrou em menos de 20 anos. “A perspectiva é que em 2060 haja apenas 2 pagantes ativos para cada inativo. Hoje temos oito ativos para cada inativo e temos tal déficit. A conta não fecha”, ressalta Franco.

O Ministério da Fazenda afirma que o déficit da Previdência somou R$ 268,8 milhões em 2017. A despesa faz parte do grupo de gastos obrigatórios do governo, o que faz com que os recursos para investimento fiquem comprometidos. A reforma é citada pelos pré-candidatos a presidência do Brasil, exceto do PT, que acredita ser necessário apenas uma realocação de verba. Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), João Amoedo (Novo), Ciro Gomes (PDT) e Álvaro Dias (Podemos) defendem mudanças. Boa parte deles sugere um regime de capitalização, no qual cada trabalhador guarda dinheiro para sua própria aposentadoria num fundo patrocinado pela empresa em que trabalha. Em alguns casos, o trabalhador pode complementar a contribuição. Os autônomos teriam de gerenciar fundos próprios, em regime de previdência aberta.

Porém, ainda é preciso debater muito com a sociedade sobre a necessidade da Reforma da Previdência para tornar mais clara a urgência do tema. A poucos meses da eleição presidencial, 43% dos brasileiros dizem que será necessário fazer uma reforma no futuro contra 38% que consideram que o sistema não precisa ser reestruturado. 19% não têm opinião formada sobre o assunto. “A reforma é urgente, com elevação da idade mínima de aposentadoria e limitação de acumulação de benefícios. Enquanto países da OCDE já passaram para idade média de aposentadoria de 65 anos, nós ainda estamos na média de 54 anos. É necessário haver a unificação das regras de aposentadoria para servidores públicos, com simplicidade e transparência. Deve haver um debate intelectualmente honesto e apartidário. É uma questão de Estado e não de Governo”, defende Edson Franco.

Independentemente das políticas públicas, das quais é um grande defensor e incentivador, Kalache diz que cabe em primeiro lugar a cada pessoa tomar decisões em favor do próprio envelhecimento saudável. Uma frase sempre dita é que a saúde não tem preço, mas tem custo. E esse custo tem crescido de forma assustadora. A boa notícia é que prevenir é sempre melhor que remediar. Principalmente quando o assunto é saúde.

Com ou sem dinheiro, investir na saúde é o segundo capital citado por Kalache. Viver muito tempo com saúde vai depender das escolhas feitas ao longo da vida. “Uma pessoa sedentária, que segue uma dieta branca – farinhas, sal, açúcar e cachaça – fatalmente sofrerá as consequências ao longo do tempo”, afirma o especialista. A recomendação é uma dieta colorida, com muitas frutas e vegetais.

A tecnologia pode ser uma grande aliada na busca por saúde. Se por um lado ela traz custos mais elevados ao permitir tratamentos sofisticados para a cura do câncer, por exemplo, de outro é possível contar com uma infinidade de inovações já corriqueiras. Há hoje em uso no mercado milhares de aplicativos que monitoram a saúde dos usuários via relógios, óculos, smartphones e sensores. Boa parte dos apps são voltados para controlar desde a pressão arterial, número de passos dados no dia, calorias consumidas e até mesmo os remédios adquiridos com descontos no plano de benefícios.

Ter amigos – O terceiro capital citado por Kalache é capital social. “Muitas pessoas se esquecem da família e dos amigos, dedicando-se exclusivamente ao trabalho. Mas o trabalho fica para trás”, comenta. Tem gente que envelhece sem se esforçar para ser aceito. Já outros precisam se esforçar para nutrir as relações ao longo da vida com alegria. “Ser ranzinza só afasta os entes queridos, levando a pessoa à solidão, sentimento que desencadeará muitas outras doenças”, afirma.

O quarto capital para se ter uma vida longeva e feliz é o conhecimento. “Ganhamos muitos anos de vida desde que nascemos e isso significa que temos de nos reciclar e buscar outras atividades ao longo da nossa existência. Um mecânico que hoje não entende de eletrônica, por exemplo, fica para trás”.

A designer Jackie Márquez, de 73 anos e dona de uma saúde e alegria invejável, acrescenta um outro capital na conta de Kalache: a fé. Jackie tem uma alimentação muito saudável, convívio social pleno com família e amigos e sempre tem um folheto de um curso novo para fazer, principalmente na área de marcenaria, uma de suas paixões. Apesar de trabalhar muito e ter muita consciência para gerenciar o fluxo de caixa, enfrenta hoje desafios financeiros por conta dos abusivos reajustes do plano de saúde. “O preço de um plano para uma pessoa da minha idade é inviável e o mantenho porque minha filha me ajuda. Já a minha fé e a alegria que tenho de estudar e praticar as lições de Jesus com minhas amigas me trazem mais otimismo para viver e planejar o futuro”.

Nasser: O que está em pauta agora é como podemos mudar hábitos para viver melhor essa vida longeva

“Precisamos investir na cultura do planejamento de longo prazo. Muitos ainda confundem curto médio e longo prazo. A carteira de investimento da previdência deve ter imóveis, investimentos financeiros e um espaço importante que deve ser preenchido com planos de previdência”, reforça Jorge Nasser, diretor da Bradesco Vida e Previdência. “A reforma perfeita ainda não foi feita por nenhum país, mas boa parte deles já deu alguns passos para a adaptação do sistema diante da longevidade e novo cenário mundial. O Brasil já tem mais de 30 mil centenários, o que faz a longevidade ser um tema relevante para o Brasil e nos alerta que vamos viver mais, sem dúvida. O que está em pauta agora é como podemos mudar hábitos para viver melhor essa vida longeva”.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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